Uma casa de cultura e tradição afro bantu em plena selva-de-pedra


Terreiro de Candomblé Congo-Angola conserva e mantém cultura Ancestral Africana na Grande São Paulo

Inzo Ia Tumbansi Tua Nzambi Ngana Kavungu – denominação em lingua quicongo, umas das linguas faladas em Angola, Congo e Moçambique, e que quer dizer em português Casa Pedaço de Terra do Deus Senhor dos Mistérios, do panteão banto, dirigido e organizado por Tata Katuvanjesi - Walmir Damasceno, que é formado em Comunicação Social com especialização em jornalismo e jornalista de profissão, sacerdote de candomblé de matriz kongo-angola, e um dos mais respeitados sacerdotes de candomblé do Brasil.

A Inzo Ia Tumbansi Tua Nzambi Ngana Kavungu - Casa Pedaço de Terra do Deus Senhor dos Mistérios foi fundada em 1986, em Ipiaú, região cacaueira do baixo sul da Bahia e transferida em 1989, para sede provisória à rua Anízio Moreira, 89, Parque Peruche, bairro Casa Verde, zona norte de São Paulo. Em seguida foi transferida para o bairro do Tanquinho, em Ferraz de Vasconcelos, região metropolitana leste da Grande São Paulo. Mas, Tat`etu Kavungu (divindade patrona da casa) queria um lugar mais apropriado e definitivo para acolher seus filhos e por isso escolheu o endereço atual, onde a casa está funcionando desde 20 de janeiro de 2005, em Itapecerica da Serra, região metropolitana sul da Grande São Paulo.

A Nzo Tumbansi, como é conhecida, abriga uma comunidade de mais de 60 pessoas, a maioria negra e pobre, em que ali encontram amparo espiritual, possibilidades de expansão de suas capacidades criativas, através da música, da dança, da aprendizagem da história de sua gente, do conhecimento dos horrores do passado escravista, assim como recebem estímulos no sentido de reforçar sua auto-estima, passando a compreender melhor as contradições da sociedade brasileira e a perceber e ocupar seu lugar no mundo, afastando-se dessa maneira da criminalidade e da marginalidade que ronda os grupos segregados socialmente do qual a maioria deles faz parte.

Uma casa de candomblé não é apenas uma casa religiosa, mas também atende outras necessidades de seus fiéis, pois tem historicamente funcionado como núcleo de resistência da cultura afro-brasileira, suprindo muitas vezes, as falhas do sistema estatal em relação, principalmente, à saúde e a educação. A casa de candomblé, através de um processo de educação informal, prepara o indivíduo para ocupar seu lugar social, através do aprendizado do senso de responsabilidade com a comunidade, assim como coisas mais práticas ligadas aos afazeres litúrgicos, como aulas de canto, de dança, de trabalhos manuais. É incentivado e instado a aprenderem rudimentos de pintura, desenho, bordados vários, tranças em palha e outros materiais, culinária sagrada e profana, ritmos e toques musicais e até etiqueta, como se sentar, como comer, como se comportar socialmente. São também levados a conhecer plantas litúrgicas e medicinais, o trato e o manejo de animais e tantas outras ocupações necessárias para o bom funcionamento da casa. Mas, sobretudo, são informalmente educados para conviver pacificamente e ordeiramente com o grupo social a que pertencem, valorizando em primeiro lugar sua família-de-santo e por extensão sua família biológica e toda a sociedade abrangente. São educados a respeitar os antepassados e ancestrais próprios e de toda a humanidade, sendo a palavra do mais velho sempre ouvida e acatada, pois a prática religiosa do candomblé é fortemente hierárquica.

O indivíduo, ao iniciar-se, cria laços de parentesco espiritual com seu iniciador e com os demais membros do terreiro, estabelecendo dessa maneira uma rede de solidariedade dentro de sua própria comunidade e com outras comunidades. Dessa forma, passa a fazer parte de uma extensa rede ao qual ele passa a pertencer, dando a esse indivíduo uma noção muito clara de pertencimento numa sociedade cada vez mais atomizada como o mundo pós-moderno. Esse efeito de pertencimento evita, muitas vezes, que o indivíduo, sentindo-se perdido numa cidade como São Paulo, e outras metrópoles brasileiras, procure pertencer a grupos determinados e marginalizados como os usuários de drogas, traficantes e outros de igual teor. Os jovens negros alvo preferencial do tráfico de drogas e do crime organizado, por pertencerem, quase sempre, as camadas mais pobres da população brasileira, oriundos de famílias destroçadas pela miséria e pela falta de perspectiva, encontra nas casas de candomblé um refúgio seguro contra as vicissitudes que sua condição social lhes impôs.

O homem africano tradicional, e os afro-brasileiros mantêm esta característica. Sua visão privilegia o homem, o ser humano, de uma maneira holística e por tal razão, sua preocupação é com o desenvolvimento do sujeito como um todo, na interação entre a casa, o trabalho, o lazer, a vida religiosa. Tudo para o homem afro-brasileiro é sagrado, daí sua enorme preocupação com a preservação das matas, das fontes de água, dos espaços de terra, porque deles vem à força, energia que move a religião do candomblé.

Sendo assim, a casa de candomblé, Nzo Tumbansi faz isso de maneira exemplar, exerce uma função civilizadora no sentido mais amplo do conceito de civilização, em que pese à carga de preconceito e discriminação de que tem sido vítima todos os templos das religiões afro-brasileiras.

Além desses aspectos destacados é necessário salientar o papel que o Nzo Tumbansi desempenha na preservação e recuperação da cultura religiosa banto no Brasil. Sabemos que os bantos, de várias etnias foram os primeiros e os mais números povos africanos que foram trazidos ao Brasil na condição de escravizados. A cultura desses povos bantos formam uma espécie de lastro para a cultura brasileira e a sua religiosidade permeou todos os aspectos religiosos do Brasil. O candomblé de Congo-Angola é uma parcela dessa religiosidade e vêm ao longo dos anos mantendo usos, costumes, práticas litúrgicas, língua ritual (kimbundo e kikongo), preservando a cultura banto no nosso pais. O Nzo Tumbansi é um caso exemplar nesse sentido, pois além de ser uma casa religiosa é também um centro de estudos bantos, com pesquisadores acadêmicos, artistas plásticos e outros estudiosos. Em plena metrópole paulistana, o Nzo Tumbansi pode ser considerado um pedaço da África banto incrustada no asfalto da mais pujante das cidades brasileiras. Adentrar os portões do Nzo Tumbansi é tomar contato com uma realidade outra, trazida pelos nossos antepassados do universo cultural banto. O trabalho de recuperação lingüística e de ritos que o Nzo Tumbansi vem fazendo é digno de nota. Sob a poeira do tempo muita coisa que nossos antepassados trouxeram foi sendo apagada da memória dos mais velhos, e hoje, pesquisadores tem ido às fontes bibliográficas recuperar elementos que se perderam pela ação inexorável do tempo. Recuperar mitos, ritos, falares, sabores é a tônica do trabalho executado no Nzo Tumbansi. É uma casa de Candomblé Congo-Angola que cumpre seu papel religioso atendendo milhares de aflitos que a procuram, mas é também um centro cultural importante na identificação e fixação da cultura banto no Brasil, um pedaço da áfrica em plena selva-de-pedra.

O Nzo Tumbansi como meio de divulgar suas atividades mantém um site http://www.inzotumbansi.org/ e um fórum de debates http://www.forumnow.com.br/vip/foruns.asp?forum=126999, através dos quais divulga e debate com outros interessados as questões culturais banto.

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