Terreiro de candomblé paulista recebe a matriarca do Tumbenci
Terreiro de candomblé paulista recebe a matriarca do Tumbenci e torna-se o maior centro de referencia da cultura banto
A proposta de tata Katuvanjesi, o jornalista baiano Walmir Damasceno, responsável pela Dianda Inzo Ia Tumbansi Tua Nzambi Ngana Kavungu, e aprofundar conhecimentos sobre a religião dos seus ancestrais, e criar um centro da cultura banto em São Paulo, precisamente em Itapecerica da Serra, região metropolitana sul da Grande São Paulo, sede do Tumbansi, e que recebeu na tarde do dia 25 de maio de 2007 a sacerdotisa máxima do candomblé de raízes bantu no Brasil, Mam`etu Lembamuxi, a carismática Geurena Passos Santos, conhecida carinhosamente por “mãe Florzinha”, que viajou de Salvador a São Paulo especialmente para a kizomba(festa) de Kavungu (Senhor dos Mistérios), patrono do Inzo Ia Tumbansi e hamba(divindade) tutelar de tata Katuvanjesi.
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Entre os cânticos e danças da religião, os devotos aproveitaram a cerimônia festiva em homenagem a Kavungu para reafirmar sua tradição e preservar as características pioneiras do Inzo Ia Tumbansi, terreiro de candomblé de matriz kimbundu-kikongo e que conserva traços semelhantes as culturas dos povos nativos de África(Angola, Moçambique e Kongo). Os membros da comunidade se prepararam durante toda a semana com uma rica programação para receber Mam`etu Lembamuxi, hoje a mais importante Sacerdotisa do candomblé de raízes banto, herdeira e sucessora do terreiro Tumbenci(casa matriz) de Salvador e toda a sua comitiva. Ela foi recepcionada no dia 25 as 16h00 no Aeroporto Internacional de São Paulo-Guarulhos, de lá rumou para o Inzo Ia Tumbansi, onde filhas e filhos de santo já a aguardava com uma recepção só vista em terras africanas para reis e rainhas. "Essa e uma das formas de celebrarmos a vida, que esta na água, no ar, na terra, em tudo o que nos cerca”, explicou a Mam`etu Lembamuxi, ao chegar no Tumbansi, em Itapecerica da Serra.
O Inzo Ia Tumbansi, fundado no ano de 1985 na cidade baiana de Ipiau e transferido para São Paulo em 1987, preserva ainda os cânticos, rezas e saudações aos ancestrais e antepassados bantu em línguas kimbundu e kikongo."E na transmissão oral que esta a forca da transmissão de nossa cultura, já que temos raros registros escritos em banto”, considera o tata ia mukixi Katuvanjesi, Ngamba dia ma(sacerdote supremo) do terreiro, assim se desenvolve todo um trabalho voltado para a preservação de nossas raízes”, afirmou Katuvanjesi.
Tradição - Poucos são os terreiros em São Paulo que mantém os preceitos bantos, ao contrario daqueles de origem iorubas, já assimilados pelos leigos por ser mais divulgado. "As casas de origem banto, com os negros de Angola e do Congo, foram uma das primeiras do país, mas ainda assim e difícil manter a tradição”, afirmou mãe Florzinha, a mam`etu Lembamuxi. Em maio, ela fez sua segunda visita ao Inzo Ia Tumbansi com o objetivo de difundir e firmar os costumes do Tumbenci de Maria Neném em São Paulo, principalmente no que se refere as origens de sua religião.
"O mais intrigante e que em Angola, pelo que sei, se encontra muito pouco do candomblé banto. Depois da escravidão, quando as culturas negras foram dilaceradas, conseguimos preservar mais aqui, para onde veio a maioria dos negros, do que eles conseguiram manterem lá, massacrados pela colonização”", explicou. Com a continuidade das pesquisas, tata Katuvanjesi pretende montar em São Paulo o Museu da Cultura Banto, impedindo o desaparecimento da língua e, com ela, da cultura de um povo.
Programa social beneficia comunidade
Caçula, samba, quilombo e uma centena de outras palavras. A língua banto esta disseminada no vocabulário do brasileiro. Na pratica do candomblé, a essência da religião independe da origem, ganha nuances que a diferenciam da de origem ioruba, como o culto aos caboclos e pequenas mudanças nos rituais de iniciação. Para que essas e outras tradições não se percam, o Inzo Ia Tumbansi, que atua também como instituição sócio cultural religiosa, procura desenvolver uma serie de programas sociais junto a comunidade local do Jardim Campestre, bairro em que se localiza o terreiro Tumbansi, em Itapecerica da Serra.
O terreiro e freqüentado por pessoas das diferentes camadas sociais da população e que se dedicam as atividades religiosas paralelamente ao trabalho social. "Temos cursos permanentes de canto, dança e línguas kimbundu e kikongo, e outros desenvolvidos em módulos especiais” informa Katuvanjesi.
O publico lotou as dependências e espaços sagrados do Inzo Ia Tumbansi e assistiu uma justa e significativa homenagem ao seu patrono maior, Kavungu. Antes do acontecimento sagrado, tata Katuvanjesi recebeu a visita de personalidades do mundo político e social, a exemplo de Perly Cipriano, Secretario de Direitos Humanos da Presidência da Republica; Roberto Bessel, coordenador da Funarte, representante do Ministro da Cultura, Gilberto Gil e do secretario - executivo, Juca Ferreira; Edgard Amaral, coordenador do Gabinete do Líder do PT na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo e diretor do Centro Cultural Afro Brasileiro Solano Trindade; Kátia Trindade e Airton, representantes do prefeito de Itapecerica da Serra, Jorge Costa, e da Secretaria de Cultura, Tatiana Lopes Nascimento Silva; diplomata Gabriel Guimarães, ministro-secretario da Embaixada da Republica de Angola, representando o embaixador Leovigildo Costa e Silva, vários sacerdotes, sacerdotisas, fieis, seguidores, adeptos e vivenciandos do candomblé.
A cerimônia festiva conduzida e presidida por mam`etu Lembamuxi foi vibrante, os filhos, filhas, netos e bisnetos de santo oriundos do Inzo Ia Tumbansi lotaram as dependências do terreiro de candomblé de raízes banto para ver de perto a matriarca do Tumbenci, o primeiro terreiro de candomblé de matriz angola-kongo que deu origem a tantos outros. O momento mais significativo foi sem duvida a presença de tat`etu Kavungu, o santo patrono do Inzo. “Foi um momento único”, disse visivelmente emocionado tata Kanjila dia Nzambi, o Marcelo Roberto Novais, presidente do conselho diretor do Inzo Ia Tumbansi, e que comandou o cerimonial do evento. A festa, em sua primeira etapa, adentrou pela madrugada, prosseguindo e finalizando somente na segunda-feira com o tradicional oferecimento de “masangu” – pipocas e outras iguarias rituais ofertadas ao mukixi(santo) Kavungu tal como e praticado na tradição afro religiosa bantu brasileira.
O Inzo Ia Tumbansi recebeu também a visita do Kimbanda Vua Nludi acompanhado do Kimbanda(sacerdote angolano) Mokomuloji, procedente do Kuanza Sul, Angola(África), que conduziu no Tumbansi o Luvembu (culto, na língua ritual) e “kuxikama” assentamento dos Ankixi(plural de mukixi – santo) Kitembu, Ngamba, Katende e Nvumbi. Ao chegar ao Inzo Ia Tumbansi, em Itapecerica da Serra, o kimbanda Mokomuloji pronunciou as seguintes palavras: “vim ate aqui porque Xisuri Uanga permitiu e porque fiquei muito impressionado com as informações de que esta Inzo se preocupa em manter vivas as tradições do culto fora da África por estou aqui neste espaço sagrado abençoado por Nzambi”, disse.
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