Comunidade bantu se prepara para gravação do CD Tumbansi
Comunidade bantu se prepara para gravação do CD Tumbansi
Todos os deuses da tradição kimbundu-kikongo, do denominado candomblé angola/congo, ganharão espaço e as devidas saudações de acordo com culto original, em um CD Tumbansi, da comunidade Inzo Ia Tumbansi Tua Nzambi Ngana Kavungu, uma das mais importantes e tradicionais casas de candomblé da região sudeste do Brasil, sediada no município de Itapecerica da Serra, grande São Paulo. O trabalho contará com a participação e colaboração do Tata Nlundi, renomado sacerdote e pesquisador dos cultos originais bantu provenientes de Angola e do Congo.
Walmir Damasceno – o tata Katuvanjesi, nganga diama(sacerdote supremo) do Inzo Ia Tumbansi, já comemora. "Este CD vai ser uma oportunidade para mais pessoas conhecerem melhor a cultura e religião tradicional kimbundu - kikongo", diz, referindo-se aos grupos étnicos-linguísticos do qual deriva o candomblé que pratica.
Assim que um de seus filhos-de-santo, o produtor musical Renato Dias, de Mutakalambo, dirigente da ONG Kolombolo, surgiu com a idéia de gravar um CD com as cantigas rituais do terreiro, Katuvanjesi reconheceu então a oportunidade de imortalizar os cantos ensinados por seus parentes de santo oriundos do candomblé de origem e influência bantu da Bahia e com a participação e colaboração de tata Nlundi, que frequentemente visita o Inzo Ia Tumbansi. Katuvanjesi irá reunir em estúdio seus tocadores de atabaques e agogôs, e já convocou seis de suas filhas-de-santo para o coro e, com apoio de tata Nlundi.
"Para Katuvanjesi, é fundamental que se desenvolvam projetos como o CD Tumbansi, do Inzo Ia Tumbansi, gravações que registram a cultura de comunidades tradicionais e históricas. É uma oportunidade do povo negro de preservar a cultura de seus ancestrais e reconhecer como o cotidiano brasileiro é repleto de influência africana", afirma o tata Katuvanjesi.
Preservação - Apesar de otimista com a gravação do CD, tata Katuvanjesi não se ilude. Para ele, o esforço de preservação da cultura bantu deve ser cada vez maior, pois, continuada a descaracterização sofrida no passado, essa cultura corre o risco de desaparecer. Ela cita o exemplo da mobilização dos quetos - praticantes do candomblé com origens em grupos iorubas, de países do oeste africano, como Nigéria e Benin -, imbuídos do dever de estudar suas culturas para preservá-las.
Se depender da disposição de Katuvanjesi, contudo, não serão seus netos que verão o fim da cultura centenária que ele carrega no sangue. Cantigas de tradição kimbundu - kikongo, o primeiro registro sonoro dos cantos da comunidade Inzo Ia Tumbansi, reunirá, em suas 46 faixas, preces destinadas a cada um dos 15 Ankixi/Jinkisi (plural de inquice e mukixi). Todas as cantigas para os Ankixi/Jinkisi, deuses similares aos orixás das tradições iorubas, são entoadas em kimbundu( quimbundo) e kikongo(quicongo) línguas de originárias de Angola, pertencente ao complexo bantu, do qual surgiram diversas línguas do centro-sul da África. Tendo aprendido a língua com familiares praticantes do candomblé bantu e com angolanos radicados no eixo São Paulo/Rio, Katuvanjesi se dedica agora, aos 44 anos, e mais de 30 deles vividos desde sua iniciação na religião, a preservar a memória cultural de seus antepassados. Ele faz questão de realizar os cultos do Inzo Ia Tumbansi, o terreiro que representa em São Paulo a primeira casa de candomblé bantu fundada na Bahia, o Tumbenci de Maria Nenén, na língua ancestral.
O Inzo Ia Tumbansi está preparando uma grande festa para comemorar a história centenária de Mam`etu Tuenda Diá Nzambi – Maria Genoveva do Bomfim, a saudosa e lendária Maria Nenén, conhecida como a grande Mãe do Candomblé de Angola no Brasil e estará erguendo um monumento em sua homenagem com um busto e o lançamento do CD tando na casa matriz, no bairro Tancredo Neves(Beru) em Salvador, e em Itapecerica da Serra.
O lançamento do CD Tumbansi será uma conquista para a comunidade Tumbansi/Tumbenci, fundado no início do século 19 no bairro de Fazenda Grande, periferia de Salvador (BA), mudando-se anos depois para o Beru, onde existe até hoje, por Roberto de Barros Reis - o Tat'etu Kimbanda Kinunga, de Katende.
O baiano Katuvanjesi, chegou a São Paulo aos 24 anos de idade e antes disso, aos onze, foi iniciado no Tumbenci. Na década de 80 ele funda no município baiano de Ipiaú, região cacaueira sul da Bahia o Inzo Ia Tumbansi e com a sua vinda para São Paulo transfere o templo para a capital paulista e o instala no bairro de Vila Brasilândia, zona norte.
Símbolo da preservação do candomblé bantu em São Paulo, o Tumbansi é um espaço de convivência entre as diferentes nações das religiões de matriz africana em solo paulistano, tendo sido freqüentado por figuras religiosas importantes das diferentes tradições religiosas do candomblé.
As festas para os Ankixi/Jinkisi mais tradicionais do Inzo Ia Tumbansi se realizam bimestralmente e recebe convidados e visitantes das diversas e variadas camadas da sociedade, no último evento realizado dia 13 de outubro na saída das maganza(noviços): Patricia de Nzazi, Akell de Kapanzu, Danilo de Lemba, Edson de Kavungu e Rogério de Nkongonbila, contou com a presença, entre outros, do babalorisá Rony d`Ode, tata Katulemburanji, Ofaroji, kota Kitamazi N´ganga, e que puderam conferir que as tradições do povo bantu encontram refúgio no Inzo Ia Tumbansi.
As origens da tradição bantu mantidas pelo Inzo Ia Tumbansi, remontam à histórica figura de Maria Nenén, iniciado no candomblé na Bahia, por um legítimo sacerdote angolense (nascido em Angola). A preservação do kimbundu - kikongo nos cultos, uma das missões de Katuvanjesi, é, para ele, um dever. Katuvanjesi se lembra com muita alegria de nomes ilustre do candomblé de angola com quem aprendeu as linguas, sua Mam`etu ia Mukixi, a saudosa Kizungirá(Maçú), tata Kudiamdembu, o quase centenário “seu” Benzinho, tata Mutaimê(Angolão Paketan), tata Nlundi, um pesquisador e estudioso da língua e dos cultos originais kimbundu – kikongo, além de africanos de nascimento como o professor Domingos Kazombo e Wai Wai Kimbanda, este último do kongo.
Os bantu são povos africanos que falam um conjunto de línguas, entre elas o kimbundu e kikongo, com a mesma raiz. Em geral, chegaram ao Brasil como escravos, vindos de Angola, Congo e Moçambique.
A crueldade da escravidão foi destruindo, pouco a pouco, a cultura bantu. Praticamente tudo o que restou nos foi legado pela tradição oral. Muitas palavras comumente utilizadas hoje no Brasil derivam de correspondentes do kimbundu, kikongo e mbundu, como quitanda, farofa, tanga, curinga e capanga.
O candomblé da tradição kimbundu - kikongo reverencia os Ankixi/Jinkisi, que guardam muitas semelhanças com os orixás da tradição iorubá. Assim, por exemplo, a Iemanjá e o Oxalá são similares, respectivamente, à Samba Kalunga e Lemba.
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