Perfil étnico-histórico do povo angolano
Perfil étnico-histórico do povo angolano
A base étnico-linguística de Angola compreende os grupos populacionais BANTU e uma minoria não-BANTU, os VASSEQUELE
Por Nganga-Nkisi Katuvanjesi – Walmir Damasceno
Os bantu
Habitando não só Angola, mas também a África Central, Meridional e Oriental, o povo Bantu constitui um grupo especial entre os negros da África. Eles têm três elementos comuns sobre os quais nenhuma contestação é possível:
a) O mesmo sistema lingüístico;
b) Uma civilização base;
c) Unidade nas idéias filosóficas.
Na vastidão das áreas que ocupam a arrancada rumo ao progresso não se deu num dia nem obedeceu, depois, a uma velocidade uniforme. Assim, no progresso histórico do desenvolvimento da sociedade, uns avançaram mais que os outros.
O povo Bantu desenvolveu a metalurgia, a agricultura, a criação de gado, a pesca, o que lhe dava uma ascendência econômica e militar.
A influência do meio geográfico, o modo de vida e a influência lingüística de outros povos fazem com que existam em Angola nove grupos étnico-linguística. Também conforme o grau de desenvolvimento, o crescimento demográfico e o nível de organização, os grupos ético-linguísticos mais fortes tinham formado Reinos que marcaram a sua história. Assim temos:
BAKONGO: O grupo étnico-linguístico Bakongo, ocupa o Norte e o Noroeste de Angola, na área que abrange Cabinda até as linhas do rio Dande. A língua falada é o Kikongo.
Repartidos quando da partilha do Continente Africano pelos países colonialistas, uma parte desse grupo passou para as atuais Repúblicas do Congo e Zaire.
A tradição ancestral diz-nos que foi um chefe chamado Nimi a Lukeni que reuniu no passado todos os clãs que falavam Kikongo, fundando o Reino do Congo, com capital em Mbanza Kongo, situada na província Angolana de Mbanza-Congo.
Povo trabalhador e comerciante adotou a moeda "njimbu" que consistia de conchas marinhas, muito antes da chegada dos Portugueses, o que assegurou o apogeu comercial do grande Reino do Kongo.
Dada a situação geográfica, foi o primeiro Reino contatado pelos portugueses, em 1482.
Kimbundu: Vizinho imediato dos Bakongo, a sul, entre os rios Dande e Cuanza, o grupo étnico-linguístico Kimbundu espalha-se de Luanda até aos Lunda-Chokwes e confina a sul com os Ovimbundu.
Antes da população Portuguesa, os Kimbundu tinham formado os Reinos do Dondo, Matamba e Estados da Kissama, onde florescia a agricultura e o comércio.
Primeiro grupo invadido militarmente pelos Portugueses, a partir dos meados do século XVI, a história nunca poderá esquecer-se dos seus grandes feitos heróicos na resistência contra a dominação estrangeira, sob o comando dos seus chefes, de que a Rainha Nzinga é expoente máximo do século XVII.
Compelidos de várias formas a conviver com os Portugueses durante séculos, os Kimbundu sofreram influência Portuguesa, intensiva aqui e extensiva acolá, com a fundação das primeiras instituições escolares na área, o que afetou sobremaneira a sua base cultural Bantu. Em contrapartida, surgiram entre eles os primeiros passos da literatura em Angola.
OVIMBUNDU: Grupo étnico-linguístico mais numeroso, ocupa o Planalto Central de Angola nas Províncias de Benguela, Huambo, Bié, na maior parte do Cuanza Sul e no Norte da Huíla. A sua língua, umbandu não tem fronteiras no interior do País e marca presença forte no Zaire, na Zâmbia e na Namíbia.
Grandes comerciantes e agricultores dedicados da África Austral, os Ovimbundu repisaram o subcontinente do Atlântico ao Índico e promoveu um intercâmbio forte de experiências e valores culturais, o que marcou fundo a sua psicologia, que faz da convivência com outros povos a sua característica principal.
É historicamente conhecido como trabalhador, hospitaleiro e paciente, mas implacável quando lesado nos seus direitos. Durante a ocupação colonial, sofreu grande influência Cristã e atingiu o maior índice no País de alfabetização e de quadros intelectuais e técnicos de níveis básico, médio e superior.
Os Ovimbundu formaram vários Estados antes da ocupação colonial, de entre os quais se destacaram os seguintes: Mbalundu, Wambu, Viye, Ndulu, Ngalangui e Chiaka. Estes Estados constituíram uma divisão administrativa da vasta área e não do seu povo unido e amalgamado na língua, cultura, tradição e caráter comum do poder - o Poder Democrático. Foram Estados fortes pela alma do seu povo, que sempre acreditou ser povo da terra dos destemidos, dos guerreiros. Ao lado das narrações, lendas e adágios, a canção testifica o passado: Kapalandanda wa Lila; wa lilila ofeko yahe yilo ofeka yoku loya, ka loyele a tunde ko!... - Kapalandanda chorou, chorou pela sua terra... Esta é terra de combate, quem não luta, saía! O que fica consubstancia a mensagem secular do grito da liberdade "TERRA E LUTA ARMADA".
LUNDA-CHOKWE: Ocupa as províncias da Lunda, parte do Moxico e está também disseminados nas províncias do Cuando-Cubango, Huíla e leste do Bié e compreende os Lunda-Lua Chimbe, Lunda-Demba e Chokwe.
A tradição conta que os Chokwe, negando ser tributário do Rei Lunda, expandiram-se numa vasta região do Moxico, Bié, Cuando-Cubango e Huíla. Antes da sua expansão, os Chokwe permaneceram estreitamente ligados ao Império Lunda, até que fundaram vários Estados.
São comerciantes, caçadores e apicultores, o que
faz da área dos Lunda-Chokwes um centro comercial importante com os povos do
planalto central até aos princípios deste século.
NGANGUELA: Povoando as províncias do Cuando-Cubango, Moxico e parte do Cunene e Huíla, o grupo étnico-linguístico Nganguela compreende os Luimbi, Luchaze, Bunda, Luvale, Mbuela, Kangala, Massi e Yavuma.
Os Nganguela destacam-se como pescadores (os Luvale são exímios pescadores que não se deixam influenciar pela época do ano) e notáveis apicultores.
Vivendo longe da costa do Atlântico e num habitat disperso, os Nganguela só foram dominados pelos portugueses a partir dos anos de 1920, dominação esta que sofreu resistência dos Bunda, chefiados pelo seu dirigente Muene Bandu, assim como dos Nhemba, com o Rei Chilhauku.
Divididos em subgrupos, não tiveram autoridade centralizada; contudo formaram importantes Reinos, dentre os quais se destacaram os Reinos do Kubango, de Massaka, ou da Raínha Lussinga, de Senge e dos Luvale, sob a prestigiosa dinastia Nhakatolo.
NHANEKA-HUMBI: Vizinhos dos Ovimbundu e dos Ovambo os Nhaneka-Humbi espalharam-se por Províncias da Huíla e do Cunene e compreendem entre outros, os Muíla, Humbi e Gambo.
Dedicando-se a pastoreia e praticando uma fraca agricultura, de vida semi-n´mada, tiveram reinos fortes que resistiram ao colonialismo.
OVAMBO: Ocupando a Província de Cunene, entre o paralelo 16ª e a fronteira com a Namíbia, é constituído por Kuanhamas, Kuamatuis, Evales e Kafimas.
Praticando uma agricultura de subsistência, tem a sua base econômica na criação de gado que, por fatores climáticos e baixo nível de desenvolvimento, não se libertou da vida semi-nómada. Sente-se ainda o calor de Mandume, que conseguiu unir o povo e fazer resistência forte aos Portugueses até Setembro de 1917. A sua capital foi Onjiva, cujo nome foi novamente retomado em substituição de Pereira d`Eça, nome que fora dado pelos Portugueses.
HERERO: O Herero é também um dos grupos populacionais do nosso País que se espalha na Província de Moçamedes, Sul de Benguela e Oeste de Huíla.
Tal como seus vizinhos Nhaneca- Humbi e Ovambo dedicam-se à criação de gado. Cada um vê no gado graúdo o seu capital e nas crias o seu lucro final.
KUANGAR-BUKUSSO: O grupo lingüístico Kuangar-Bukusso ocupa toda a faixa Sul da Província do Cuando-Cubango.
Agricultores pacientes devido à ação cíclica da estiagem têm a sua economia na criação de gado. Também praticam a pesca nos rios Cubango e Cuando.
OS VASSAQUELE: Os Vassequele constituem um grupo numericamente muito reduzido, que se encontra na Província do Cunene e no sul do Cuando-Cubango.
Caçadores infatigáveis têm sido nômades ao longo dos tempos. Porém com a influência dos povos Bantu, quase todos adaptaram a vida sedentária, fazendo pequenas lavras, sem terem deixado a caça e a procura de fruta e mel.
Os Vassaquele possuem uma linguagem especial, caracterizada por "clics" ou estalidos. Foram os autores das maravilhosas pinturas que se encontram nos rochedos, em muitas grutas do Sul de Angola, como na gruta do Chitundo-Hulo no deserto de Moçamedes.
LUVAVU - ENQUETE
O Que achou do novo site?
NKANDALALA - BANNER
Pesquisar
UNVUNDI - NAVEGADOR
Conteúdo mais visitado
Novidades da Inzo
- Lideranças de Comunidades Tradicionais de Terreiros das Matrizes Africanas reunidas no Nzo Tumbansi na Conversa de Terreiro com gestores do Governo Federal
- Taata Kwa Nkisi Katuvanjesi vai participar da construção do Programa de Governo do Pré-Candidato a Prefeito de Itapecerica da Serra
- Taata Katuvanjesi mais uma vez é recebido com festa na Bahia
- Lideranças de Povos Tradicionais de Terreiros discutiram iniciativas de Políticas Públicas no âmbito do Governo Federal em Brasilia
- Tata Katuvanjesi confirma presença no Seminário "Povos Tradicionais de Terreiro - Território das Matrizes Africanas no Brasil"

