PALO MONTE DE CUBA – UMA RELIGIÃO QUE VEIO DO CONGO

·         pesquisa do professor doutor Sérgio Paulo Adolfo, de  Nzazi, Kiundundulu, Tata Kisaba do Nzo Tumbansi, Itapecerica da Serra, SP

Palo, ou Las Reglas de Congo são denominações estreitamente relacionadas a origem Bantu desenvolvidas por escravos vindos da África Central.Outros nomes associados com as diversas modalidades desta religião incluem: Palo Monte, Palo Mayombe, Brillumba, Kimbisa. A palavra "palo" é aplicada na religião devido ao uso de estátuas entalhadas em madeira ou palo (pau) para construir o altar. Outro significado mais próximo da religião descreve a equivalência entre a palavra "palo" com a de "árvore", sendo os locais onde habitam os espíritos na África. Os seguidores do "Palo" são denominados "paleros" ou Nganguleros". A participação nestes grupos é dada por uma cerimônia de iniciação em uma "casa" ou "Templo". A estrutura organizacional segue o modelado de uma "família". Durante a escravidão sofrida pelos africanos, quando as famílias de sangue foram separadas, este modelo foi particularmente significativo.

Os bantu (bakongo) constituíam a etnia dominante do contingente de escravos que chegaram a Cuba. Os escravos bakongo, perante a dominação política e economica dos espanhóis, dissimularam suas crenças tornando secretas suas práticas focalizando-as na resolução de problemas individuais em relação á doença, aos problemas conjugais e familiares, a pobreza e processos judiciários. Mantêm, no entanto, a influência e a hibridação Congo, yoruba e católico. A religião bakongo “mantêm e conserva a lembrança das suas origens Congo nos cantos e as orações, mas também em documentos escritos que circulam na comunidade dos paleros. Orações, cantos, receitas rituais que fazem referência ao Congo - tornado um território mítico - são transcritos lá. A maioria deste material é procedente da tradição oral. No entanto, a referência à História do Congo e de Angola nos faz pensar que os paleros utilizam fontes historiográficas para reativar ou mesmo reconstruir a memória colectiva” (Dianteill, 2002:78).

 

A REGRA CONGA (PALO MONTE) É MONOTEÍSTA

 

A entidade divina suprema é Nzambi. O culto baseia-se na criação, por parte do praticante (palero) de um centro de força excepcional (de energia) num chegado nkisi, nganga, prenda formada por distintos elementos que adquirem sentido metafórico (alegórico): ossos humanos simbolicamente selecionados e muitos elementos naturais que formam o centro mágico e que teria como fim submeter os fenômenos naturais à vontade do homem, protegê-lo de todos os seus inimigos e de todo o gênero de perigos, e dar-lhe poder de prejudicar os que lhe são hostis. Tem terapêuticos homeopáticos baseados no vínculo com a natureza e com o conhecimento da floresta e possivelmente, em suas origens, com o conhecimento da farmacopeia natural (fito fármacos) (monte).

Os mortos são utilizados para o fortalecimento do poder espiritual e social da família que possuem os ngangas ou prendas. Há pois uma aproximação permanente dos mortos, ou de um morto escolhido à totalidade litúrgica. A prenda deverá ser regada com frequência com sangue de uma ave (uma pomba, uma galo) e ser-lhe-ão dadas oferendas e alimentos. Assim se manterá forte, lugar de concentração dos poderes da natureza capaz de,através da ação da sacerdotisa (praticante) em transe, resolver os problemas como doenças, problemas conjugais e familiares.

A prenda, também chamada sarabanda ou prenda cristã. Esta exerce a sua ação benéfica sobre os consulentes (consultantes) - resolução de problemas.

Durante o domínio espanhol e os primeiros anos da independência cubana este culto  era proibido. Uma das razões evocadas era a acusação era a de utilizarem sangue humano de crianças sacrificadas para alimentar as prendas. Nunca se confirmou esta acusação que é negada pelos seus praticantes.

Os processos de iniciação são complexos. Podermos sintetizá-los em duas cerimónias. A primeira é conhecida com o nome de fundamento, o caminho inicial que identifica o crente como membro do culto e com os poderes secretos centrados (rayamiento) na prenda ou nganga. Diz-se que o neófito precisa raiar-se (ligar-se) no palo para melhorar a saúde, para resolver os seus problemas. O padrinho ( o iniciador) pede ao neófito para trazer determinados “ingredientes” para “carregar” ou “subir” a prenda para que seja possível o rayamiento (normalmente um animal de 2 pata e outro de 4 patas e aguardente para preparar a chamba – bebida ritual). Pode haver na cerimônia um ajudante (fakofula) que entra em interação verbal com o padrinho e pode haver também toques de tambor e bailados. Estes porém não são imprescindível e em Havana  raramente existem. O neófito pode então ser possuído por uma entidade. Depois de terem oferecido comida e bebida ao nganga ou prenda perguntar-lhe-á se está vacheche, “subida”, “forte”. Se receber uma resposta afirmativa pode raiar-se o iniciado, isto é, fazer-se incisões com um instrumento cortante em certas partes do corpo (nyora são as escarificações) que realiza o nganga nos seus paciente com intenção curativa ou mágico protetora.

A segunda parte da iniciação chama-se “nascer em cima de nkisi”.

É a cerimónia de entrega do nganga. Supõe-se que o raiado  ou iniciado tenha passado por um processo de aprendizagem do ritual e dos processos de adivinhação junto do padrinho e tenha se tornado um ajudante fakofula  ou como simples palero. O iniciado, futuro ngangulero, deve escolher o tipo de prenda - cristã ou judia. Há pois uma diversidade de prendas e entidades vinculadas. As prendas são denominadas: cristã e judia. As entidades vinculadas à prenda cristã é sarabanda e da judia ogun guerreiro. Nela se centram energias poderosas capazes de desencadear as forças do mal ou do bem.

Embora haja na Regra Palo Monte e em todas as outras práticas mágico religiosas uma regra escrita, hoje amplamente divulgada na Internet, sobretudo na comunidade cubana de Miami, esta continua a ter práticas localizadas muito diversas.

O transe ou possessão espiritual constitui uma forma de mediação direta com os antepassados – fundamento deste sistema de crenças. O animismo, o fetichismo e a magia são componentes secundários subordinados ao culto dos antepassados, há também um forte conteúdo mágico do feiticeiro. No ritual há elementos alheios à cultura bantu e pertencentes a outras crenças – crucifixos, velas, rosários, água benta, imagens de santos ou mesmo pólvora e armas; culto dos santos e de ritos judaico-cristãos, saudações muçulmanas. Também cabildos, casinos, sociedades e locais de culto são alheios à cultura bantu. A junção das funções de cura e feitiço num mesmo celebrante ou a centração do culto no nganga são também considerados alheios à cultura bantu. A crença de origem bantu é sobretudo nos antepassados e na natureza. O nganga é apenas um objecto em que se concentram as forças da natureza e dos antepassados.

São considerados como componentes bantu do Regra de Palo Monte: o receptáculo mágico (prenda, nganga ou nkisi), cerimónias de iniciação, causas que facilitam a iniciação – herança, sonhos persistentes, doenças e problemas sociais e familiares, utilização da bebida ritual (chamba), sacrifício de animais, oferta de comida e bebida aos espíritos, toques e danças para propiciar a ação dos mortos e da entidades espirituais, utilização da casa do padrinho como local de consulta e como templo. As circunstâncias da deslocação (desenraizamento da sociedade de origem e da nova realidade social) perca de ritos comunais – cíclicos); perda de cerimônias relacionadas com a família, acomodamento ou adaptação a determinadas exigências da cultura dominante (Guerra e Gomez, 2004)

 

 

 

Texto escrito a partir de

José da Silva Ribeiro – Universidade aberta de Portugal

Palo Monte, um rito Congo em Cuba.

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