Os Minkisi: o culto aculturado
Os Minkisi: o culto aculturado
Por Tata Mutadiamy – professor Mauricio F. Santos, de Mutakalambo
Antes de iniciarmos este
texto devemos elucidar. O termo BANTU é um etmo que serve como mecanismo
geopolítico para designar tal civilização lingüística de acordo com o renomado
filólogo europeu - Porém este termo não nos garante fidelidade ao pensamento milenar
ou a etnia milenar de africanos meridionais que se expressam de formas
intrigantes aos olhos atuais, sendo os mesmos religiosamente membros desta
etimologia arraigada de preciosismo acadêmico tão alvo como as nuvens do céu e
tão obscurecido pela sombra de cor pálida dos colonizadores, imperialistas
europeus ou escravocratas de outrora que querem dar nomes sedentos de
descobertas desastrosas.
Os Minkisi ou Makishi, singular Nkisi ou Nkishi, divindades originárias do Congo, de Angola (Cabinda), e de outras províncias com diferentes nomes, representam de forma lingüística um significado referente à magia, ou um determinado elo complexo entre o mundo real e o mundo sobrenatural. Incompreendidos pelo olhar ocidental os Minkisi foram capturados, subjugados e destruídos pelas constantes investidas das culturas cristãs na África Banto, considerados elementos fetichistas, arcaicos e ignorantes que faziam resistência à religiosidade cristã. Hoje suas resistências na África e no Novo Mundo comprovam a intolerância, a arrogância etnocêntrica por parte do homem ocidental, e o brutal imperialismo que o povo africano sofreu desde o início do século XII até os dias atuais.
Toda religiosidade "Bantu" concentra-se na transição entre o mundo dos vivos e os diversos paralelos entre o mundo dos mortos. A visão maniqueísta entre o bem e o mal, muito conhecida entre as religiões ocidentais, afasta-se da multipluralidade das religiões africanas na África - Banto ou no Brasil - Banto. A visão européia acostumada em atribuir valores e funções específicas a objetos e práticas religiosas como: elementos relacionados à religião, a educação, a arte, a medicina, ou a uma ciência peculiar ou instituições sociais, afastam-se da visão Banto da multifuncionabilidade do campo divino (Minkisi). Por isso, as divindades como os objetos sagrados podem assumir várias funções ao mesmo tempo. Assim, o Nkisi pode ser a divindade de ligação entre a esfera do mundo real e as diversas esferas do mundo sobrenatural; também pode ser o remédio por suas qualidades terapêuticas; a magia motivada pelo fenômeno da incorporação, e a perpetuação da vida acomodando-se em diversas manifestações da natureza como a flora e a fauna estabelecendo-se dentro do homem e, por conseguinte, reforçando a memória, a perpetuação das tribos, dos clãs, e em tempos posteriores a continuação e manutenção de valores familiares-tribais. Na África Banto encontramos diversos Minkisi como: Nkondi; protetor das aldeias de caráter agressivo, muito utilizado para afastar Ndoki e kiumba, ou seja, bruxos, feiticeiros, criminosos, energias negativas e forças maléficas; Nkisi Si, guardião das terras e dos territórios muito ligado a fecundidade masculina, Nkisi Banchi, ligado à caça e ao clã dos caçadores, Nkisi Pfemba que através do processo de colonização chega ao Brasil reapropriado pelo mito de Lemba, de sexo feminino em sua primeira forma sendo também cultuado como masculino chamando-se Lemba, responsáveis pela fertilidade masculina e feminina, pelo inicio da vida e ao mesmo tempo como símbolo de nobreza e realeza, destacamos outros como nkisi Lumueno, protetor da caça e perseguidor dos malfeitores. O nkisi tem varias finalidades e objetivos. No entanto seu maior prestígio está no oferecimento de cura para doenças diversas, portanto se falta medicamentos, os povos Bantu não podem fazer coisa alguma. Assim o nkisi quando têm medicamentos, que geralmente são carregados ou amarrados pelo Nganga no “bilongo” em redor dos “Juju” que são estátuas de Minkisi, eles são suas forças, suas mãos, seus pés, seus olhos e principalmente seu “hamba”. Por isso, o nkisi é usado pela comunidade inteira, com o passar do tempo adquire muitas lâminas, cunhas, pedaços de tecidos e mais medicamentos que são colocados no intuito de atender pedidos e súplicas dos mais diversos problemas cotidianos. Assim, há a criação de muitos “Juju” ou "itekes", pois cada um soma a seu poder, uma infinidade de intenções depositadas pelo povo Banto.
Outro dado nos é oferecido pelo sacerdote e pesquisador Walmir Damasceno, ou
Tata Katuvanjesi, dirigente do Nzo Tumbansi Tua Nzambi Ngana Kavungu,
estabelecido em Itapecerica da Serra, SP, quando retrata a origem dos Minkisi,
a narrativa que nkisi Funza, que tem forma humana e vive remotamente invisível
em baixo da terra e na superfície da água. Aquele nkisi que quando esta entre
os homens transforma em panela, “bengue” dentro de uma cesta, este nkisi é
visto como o primeiro nkisi e é considerado como o remédio ou medicamento
sagrado que deu lugar a todos os outros Minkisi. Além disso, encontramos outras
divindades ou outros cultos paralelos como Nkita, que se associa às ervas e aos
poderes sobrenaturais dos espíritos das florestas, quase sempre invocados na
Iniciação. Além de Isumbo a mãe da ráfia e da terra curadora. Em geral, esses
Minkissi quando vieram para o Brasil foram reapropriados e, muitas vezes,
fundidos com outras divindades africanas como Voduns dos Gegês, e
principalmente com os Orixás Nagôs e santos católicos. Eventualmente o processo
de reapropriação das divindades africanas no Novo Mundo seguiu a aproximação
por clãs. Assim, podemos citar os seguintes clãs como: Clãs dos Guerreiros;
Nkondi, Nkossi (Banto), Ogum (Nagô), Gun (Gegê). Clã dos Caçadores; Lumueno,
Banchi, Muta, Mucongo, Mutakalambo (Banto), Odé, Oxossi (Nagô). Clã dos Reis;
Lemba, Pfemba, Ilunga (Banto), Xangô (Nagô), Heviosso (Gegês). Clã Matriarcal;
Samba, Kaiala, Dandalunda, (Banto), Oxum, Iemanjá (Nagô), Lissa, Axiri (Gegê).
Clã da Ráfia; Kavungo, Isumbo (Banto), Obaluaye (Nagô), Sakpata (Gegê), entre
outros. No entanto devemos advertir que cada Nkissi, Orixá e Vodum representam
um universo semelhante, mas não igual ou idêntico, pois cada divindade está
vinculada a uma cultura distinta e peculiar. É claro que houve um processo
desencadeado por fatores históricos como: as invasões em terras africanas por
Portugueses, Ingleses, Holandeses, o comércio escravocrata, as guerras internas
tribais em território africano, as misturas de diferentes povos africanos no
Brasil etc. Portanto, o sincretismo no Novo Mundo e principalmente no Brasil
pode ser representado por um gráfico com algumas ressalvas, pois em alguns
lugares do território brasileiro a reapropriação terá outras vertentes
sincréticas.
Como a nossa proposta é comentar o universo dos Minkissi, voltamos aqui ao assunto.
Na África como no Brasil os Minkissi representam, em específico, vários setores
da natureza como: á água, o mar, a lavoura, a terra, o sol, a chuva e, em
geral, são os guardiães das aldeias, todos caçadores, ou seja, fundadores de
povoados, que no espaço "Banto" correspondem a guerreiros,
desbravadores, justiceiros e principalmente curandeiros, Todos de personalidade
fortes, quase sempre confeccionados de forma mal-humorada, e quando
incorporados nos seus filhos, os mesmos devem ser descendentes dessa tradição,
os mesmos trazem no rosto um sinal de seriedade e rigidez, porém são seres
destemidos que enfrentam os inimigos visíveis e invisíveis. Assim existe no
Brasil a seguinte disposição entre os Minkissi e seus diversos rituais estando
dispostos entre as nações de Angola e de Congo:
Nzambi Npungo – Deus poderoso, criador.
Nkulu ou Makulu – Antepassados.
Pombo Njila – Senhor dos caminhos.
Nkosi – Justiceiro.
Katende – Senhor das ervas.
Npanzo – Senhora das ervas.
Mutakalambo – Deus da caça.
Mukongo – Caçador.
Cabila – Pastor.
Mutajinji – Caçadora companheira de Mutakalambo.
Mutadinan – Caçadora destemida.
Kavungo – Deus da ráfia.
Nsumbo – Deus ou Senhora da ráfia.
Hongolo – Senhor do arco-íris.
Hongolomenha – Senhora do arco-íris.
Nzazi – Rei dos raios.
Luango – O senhor dos trovões.
Kitembo – O Deus das árvores e da atmosfera.
Matamba – Rainha da caça e dos espíritos das florestas.
Nvulusema (Banburussema) - Senhora das tempestades.
Vunji – Protetora das crianças, Senhora da justiça.
Dandalunda – Senhora das colheitas.
Kissimbi – Senhora dos rios.
Samba Calunga – Mãe de todos os seres, dona do mar.
Kaitumbá – Rainha do mar ou dos rios.
Micaiá – Senhora das costas dos rios ou dos oceanos.
Kissanga – Forças das águas, sereias dos rios.
Zumbarandá – Mãe da terra molhada.
Lembá – Senhor da criação.
Nvumbe – Alma do morto.
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